É. Eu seu que estou há muito tempo sem postar. Mas eu acredito que o prazer se transforma em chatice quando passa a ser obrigação.Assim, eu prefiro postar somente quando estiver disposto. Creio que isto vai deixar meus textos mais prazerosos, pelo menos para mim.
Quero falar, hoje, sobre algumas considerações que tenho sobre a teoria da gestão pela qualidade.
Ao mesmo tempo em que assistimos a uma
produção cada vez maior de bens e de serviços, acompanhamos a intensificação da
segmentação dos mercados, fruto da diversidade e de uma sociedade complexa em
conteúdos e exigências. E assim como rejeitamos produtos e serviços
insatisfatórios e propagandas enganosas, buscamos, cada vez mais, o que seja
capaz de atender às nossas expectativas e interesses e, por isto, vemos também
um ciclo cada vez mais rápido de produtos e organizações que aparecem e
desaparecem. Garantir a sobrevivência da organização neste ambiente de extrema instabilidade é o principal desafio vivenciado pelos administradores.
Estabelecer um modelo gerencial capaz de assegurar resultados positivos
torna-se, então, primordial. Talvez por isto, a
gestão pela qualidade surgiu como uma poderosa arma competitiva. A ideia da gestão marcada não mais focalizada no produto, mas nos clientes, reordenou
as organizações, de alto a baixo.
Historicamente, o pensamento administrativo
tem sido influenciado por diversas correntes filosóficas que foram classificadas
segundo a forma pela qual enfocaram algum dos seguintes aspectos : ênfase na
tarefa; ênfase na estrutura; ênfase na pessoa; ênfase na tecnologia; ênfase no
processo; ênfase no ambiente. Cada uma destas correntes considerou a qualidade
de uma forma bastante particular e, sob a ótica de suas propostas, a função
econômica das organizações seria a de produzir bens ou serviços, enfatizando a
produção em si.
A análise das teorias norteadoras do pensamento administrativo,
vai nos mostrar que o problema da administração concentrou-se na produção e
distribuição de produtos, com o quase esquecimento ou ausência de um personagem relevante para a
gestão moderna : o cliente , suas expectativas, desejos e necessidades.
Os primeiros sintomas
de que a Administração focalizava o ambiente externo surgiram com a Teoria
Estruturalista. A redescoberta dos trabalhos de Max Weber colocou um foco nas
relações das organizações com seus clientes. A teoria do modelo burocrático de gestão desenvolveu-se, a
partir destes trabalhos, em função dos seguintes aspectos :
1) A fragilidade e a
parcialidade tanto da Teoria Clássica como da Teoria das Relações Humanas,
oponentes e contraditórias entre si, mas que não possibilitam uma abordagem
integrada e envolvente dos problemas organizacionais. Seus pontos de vista
extremistas e incompletos a respeito das organizações carecem de um enfoque de
maior amplitude, tanto do ponto de vista da sua estrutura como do ponto de
vista dos seus participantes.
2) Tornou-se necessário
um modelo organizacional capaz de caracterizar todas as variáveis envolvidas,
bem como o comportamento de seus participantes e que fosse aplicável às
diversas formas de organização humana.
3) A crescente
complexidade das organizações passou a exigir modelos gerenciais mais bem
definidos.
Assim, a
abordagem da Sociologia da Burocracia propôs um modelo organizacional o
qual os administradores não tardaram a
tentar aplicar na prática em suas empresas. Tal modelo propunha uma nova forma de organização calcada em
racionalidades. Seus estudiosos,
entretanto, evidenciaram sua preocupação quanto à despersonalização dos
relacionamentos, o que levaria a uma consequente dificuldade no atendimento a
clientes e possíveis conflitos entre os diversos públicos das organizações
excessivamente internalizadas e formais.
Os sistemas de gestão pela qualidade,
todavia, enfatizam a importância da razão instrumental ou racionalidade
instrumental em associação a uma estrutura formalmente estabelecida como
elemento capaz de proporcionar eficácia a uma organização, prescrevendo para o modelo :
. As regras, decisões
e atos administrativos devem ser formulados e registrados por escrito,
assegurando uma interpretação sistemática, economia de esforços, padronização e a continuidade, fundamentais à
sobrevivência da organização. Existe um caráter formal no modelo, pois sua atividade decorre de
normas racionais - porque coerentes
com os fins visados, legais - porque
conferem à pessoa investida da autoridade o poder de impor a disciplina, exaustivas - porque as normas procuram cobrir todas as
áreas da organização, prevendo todas as ocorrências e enquadrando-as em um
esquema definido, escritas - porque
constantemente atualizadas e, nestas condições, reescritas.
. Cada participante
deve saber qual é a sua tarefa, qual é o seu nível de autoridade e quais são os
seus limites. Esta divisão é feita impessoalmente em termos de cargos e
funções.
. Cargos serão
estabelecidos segundo o princípio hierárquico. Devem ser fixadas regras e
normas técnicas para o desempenho de cada cargo. Isto implica ser necessária a
preparação especializada dos participantes para que seu desempenho seja
racional.
. A escolha das
pessoas deve ser baseada no mérito e na
classificação e não em preferências pessoais. Esta é uma forma de organização
caracterizada pela profissionalização de seus participantes e exige
profissionais especializados em gerir o empreendimento.
Mais recentemente, definiu-se este modelo de
gestão como sendo um tipo de cooperação na qual as funções de cada parte do
grupo são precisamente preordenadas e estabelecidas e onde há uma garantia de
que as atividades planejadas serão executadas sem maiores atritos. Dentre as
vantagens que ele proporciona
destacam-se :
- precisão na
definição dos cargos permitindo delimitar melhor a quem cabe a
responsabilidade;
- maior rapidez nas
decisões pela tramitação de ordens através de canais preestabelecidos;
- univocidade da
interpretação, garantida pela regulamentação específica e escrita;
- hierarquia
formalizada;
- seleção de pessoal
baseada na capacidade e competência técnica;
- existe continuidade
na organização;
- procedimentos
definidos por escrito, permitindo uniformidade, padronização, redução de custos
e de erros.
Por ser um modelo de gestão de
características essencialmente burocráticas, destacam-se dentre as suas desvantagens ou disfunções :
. tendência à
despersonalização do relacionamento intra e extra organização;
. as normas tendem a
transformar-se de meios a objetivos, passando a ser absolutas, isto é, ocorre
uma tendência à internalização de diretrizes com um exagerado apego aos
regulamentos e uma propensão a reagir a qualquer mudança;
. as decisões tendem a
ficar restritas àqueles que ocupam os cargos
hierarquicamente mais elevados;
. os participantes
tendem a fazer o estritamente contido nas normas e regras da organização,
gerando tendências a um desempenho mínimo dos participantes, uma resistência às
normas estabelecidas ou a uma super conformidade;
. o excesso de
"papelada" faz com que haja uma tendência ao manuseio desinteressado
dos documentos da organização;
. dificuldade no
atendimento a clientes e possíveis conflitos entre público e membros da
organização devido ao excesso de padronização e impessoalidade, que levam ao
descaso e a pouca atenção com que os "problemas" do cliente são
atendidos.
Embora o modelo burocrático de gestão não
considere sua adaptação às exigências de seus diversos clientes, os modernos
conceitos de gestão pela qualidade são
fundamentados em seus princípios. Os modelos
de gestão pela qualidade preconizam uma contínua busca de eficiência, ou seja,
uma forma de racionalidade na qual a coerência dos meios em relação aos fins
visados traduz-se pelo emprego de um mínimo de
meios para a obtenção de um
máximo de resultados.
Dá o que pensar, não?